Domingo, 11 de Julho 2021

lacanlitoral

O que a collage nos ensina?

Por TATIANA GOMES

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Esse texto seria sobre a collage e a escrita feminina, articulações que fiz em um produto de Cartel sobre o feminino, temas que me são caros. Entretanto, resolvi trazer outra coisa.

Começo com a minha história em torno da colagem, de como a escolhi como uma saída frente aos meus modos de sofrer, que por vezes me fazem uma visita.

Dei início a colagem como um hobby, que se tornou aos poucos - um trabalho - sobretudo, psíquico. Minha mãe guardava algumas revistas e vê-las dentro de baús sem serem usadas me dava uma aflição. Até que, ao pedir que me desse as tais revistas, escutei: 'Você não vai jogar fora, né?'

Talvez jogar fora fosse uma saída - aqueles papéis estavam velhos - mas sem pensar, respondi que as transformaria em arte. Naquele ano eu fazia colagens digitais, desdobramentos que surgiram de meu trabalho com tirinhas. A saturação das telas já me fazia uma visita também. Vivia um tanto cansada... e, ao me ver recortando algumas gravuras e caminhando em direção à colagem manual, pude encontrar ali novas texturas.

Uma amiga que iria se desfazer de algumas revistas me entregou uma caixa cheia delas. Outra, me enviou pelo correio alguns livros... linhas e objetos variados também passaram a fazer parte do processo. Os recortes de papéis se deram bem com tecidos, plantas secas e uma costura ou outra que aprendi a fazer para diversificar ainda mais as collages.

Como uma distração fui estudar uma técnica que se chama 'técnica mista'. Ela inclui todas as coisas ditas anteriormente... e tintas, rendas, o que se quiser utilizar para a composição.

Hoje penso que a collage me possibilitou dar um destino outro para o que se mantinha estagnado. As primeiras revistas que fizeram parte desse processo eram de 'Casa e Construção', mas nessa de recortar e colar, considero que mais coisas tenham sido demolidas do que construídas.

Recente alterei todas as páginas de um livro que tem como título 'As cabanas que o amor faz em nós', da escritora Ana Suy. Cito porque considero que a collage possa ser uma boa cabana, não só como refúgio, anteparo... mas como espaço de trabalho e de laço com alguns outros. Com ela pude amar de outra forma. Uma que não precisasse jogar fora ou apenas observar um baú de revistas,ali, sem ao menos serem folheadas. Nesse intervalo, entre uma coisa e outra, frente a um impasse, pude dar lugar à invenção. Um novo amor, eu diria, não sem algo dos papéis velhos.

Por vezes me deparo com um esforço em dar dignidade aos restos que a collage convoca a cada vez que me sento com uma tesoura ou bisturi nas mãos. Porém, o mais interessante é que um pássaro em uma colagem perde a qualidade de pássaro, pequenos trechos compostos por palavras também se desfazem do significado inicial, um sachê de chá não é um sachê de chá... bem como a linha vermelha entrelaçada nos dedos. Uma pedra em formato de coração ao fundo, com algumas rachaduras, não é isso que acabei de dizer. As coisas deixam de ser, são desviadas do significado que era atribuído até então. Elas perdem consistência.

Essa arte, para mim, é sinônimo de gambiarra, invenção, arranjo. Os materiais que utilizo já não são os que comentei anteriormente, pois eles são feitos dos meus próprios restos. No vôo o pássaro não se liberta da tristeza, mas voar já é em si mesmo o tratamento possível... a collage me ensinou.

Tatiana Gomes nasceu no Rio de Janeiro e muito nova mudou-se com sua família para Natal-RN, onde mora até então.

A partir de seu trabalho de análise, dedicou-se aos estudos da psicanálise e passou a ocupar a função de psicanalista. Sua formação se deu em psicologia, mas segue em percurso pela psicanálise, descobrindo as satisfações - sempre parciais - que encontra também pela via da arte.

Há quatro anos se dedica, com humor e leveza, aos temas que são de seu interesse através de tirinhas publicadas em sua página @tatithoughts. Atualmente se divide entre a clínica, as tirinhas, os recortes e colagens.

No momento tem investido em construir um livro sobre a escrita e o feminino utilizando colagens feitas com distintos materiais.

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