lacanlitoral

DESENLACES

Por ASTARUTE MENDES

“Ah, se já perdemos a noção da hora, se juntos já jogamos tudo fora, me conta agora
como hei de partir [...]”

 

Chico Buarque.

Parcerias ou enlaces amorosos são assuntos de grande interesse entre as pessoas e que permeiam suas discussões em diversas áreas ou campos do saber: teledramaturgia, cinema, literatura, poesia, música. Assim, mesmo havendo percalços, desencontros ou impedimentos, o amor, em certa medida era associado a estabilidade, paz, felicidade e até alguma completude, afinal quem não conhece as expressões “alma gêmea” “tampa da panela” sem falar no mito tão conhecido de Aristófanes sobre o Andrógino.
 

Como lembra Ferrari (2009), embora o amor até se constitua como fonte de valiosos vínculos entre os humanos, pelo seu caminho a felicidade, paz e quietude mencionados acima não são lá tão facilmente encontrados. O que se percebe é uma desestabilização no que Freud denominou como harmonia homeostática, nas formulações sobre o princípio do prazer. É nessa circunstância que se observa um
aumento no nível de tensão que deveria estar em um patamar baixo e que acarreta ao sujeito desejante um certo desconforto.

 

O que vi nesse sujeito? Que características, físicas ou psíquicas atraíram minha atenção? Há quem diga que o motivo de seu encantamento se relaciona à um detalhe bem especifico como um olho, um pé, ou até um nariz com uma curvatura específica que lhe confere um certo brilho. O tal do brilho no nariz freudiano, que à proposito pode ser encontrado para comprar hoje em dia, com o nome de iluminaDORES, e que servem à função de compor semblantes ficcionais, ocultaDORES, bem como os filtros do instagram e outros produtos utilizados no ato da maquiagem que disfarçam e ressaltam traços outros, traços que se constituirão como agalmáticos. Algo que faz brilhar e ao mesmo tempo que é da ordem do efêmero do etéreo, pois ao fixá-lo na pele já se observa no horizonte o seu desvanecer.
 

Questionamentos dessa ordem podem ser pensados a partir dos textos freudianos conhecidos como: Contribuições à psicologia do amor I e II (1910-12) em que o autor discorre acerca da eleição do objeto, investimento libidinal, correntes terna e sensual, que precisam estar entrelaçadas no momento da escolha amorosa e reiterar que nossa eleição objetal não é nem um pouco aleatória e se relaciona ainda com o que o autor em seu texto Sobre o Narcisismo (1914), diz seguir uma via narcísica, ou outra via que ele
nomeou de anaclítica.

 

Satisfeitos os requisitos, os sujeitos fazem pactos, entram nos engodos, nas ficções necessárias, e são necessárias pois mesmo na vertente da fantasia, da ficção/fiXÃO, no sentido de ponto de ancoragem, são fundamentais ao evento do enamoramento e à construção dos próprios filmes imaginários. Como diz Homem (2021), se é bem ativo para pintar as cores do engano, copia-se, cola-se, dá-se ênfase em uma frase, finge-se não ouvir outra, para assim se desenhar a princesa e o príncipe perfeitos. A completude. No entanto “o que falta a um não é o que existe escondido no outro. Aí está todo o problema do amor [...]. No fenômeno encontra-se a cada passo o dilaceramento, a discordância.” (Lacan, 1960-61/2010, p.56). Neste seminário o autor trata a temática da transferência e traz passagens dos diálogos das personagens do Banquete de Platão além de termos como Erastes: o sujeito que ama, se apresenta como faltoso, não sabe o que lhe falta e Eromenos: o ser amado, que pode ter algo mas sabe o que o faz ser tão interessante aos olhos do outro.
 

Ferreira (2004), com referências lacanianas, diz que a forma de se posicionar subjetivamente frente à castração dirá respeito à maneira de se relacionar no amor. Porém não se deve deixar levar pela ideia de que o amado corresponda a outra metade que alguém almeja, e esperar a façanha de que os dois tornem-se um. Isso só pode levar ao fracasso e a decepções. Amar, presume dois lugares, o de amante, ativo, que se sente faltoso, mas que não pode nomear o que falta e amado, que não sabe o que possui que o faz ser especial. Para Lacan (1973/1988, p. 260): “eu te amo, mas, por que inexplicavelmente amo em ti algo mais do que tu – o objeto a minúsculo – eu te mutilo."


Lacan (1953-54/2009) ainda diz que:

 

 

[...] o amor daquele que deseja ser amado, é essencialmente uma tentativa de capturar o outro em si mesmo, em si mesmo como objeto[...]. O desejo de ser amado é o desejo de que o objeto amante seja tomado como tal, enviscado, submetido na particularidade absoluta de si mesmo como objeto. Aquele que aspira a ser amado se satisfaz muito pouco, isso é bem sabido, como ser amado pelos eu bem. Sua exigência é ser amado tão longe quanto possa ir a completa subversão do sujeito numa particularidade, e no que essa particularidade possa ter de mais opaco, de mais impensável. Queremos ser amados por tudo – não somente pelo nosso eu, como o diz Descartes, mas pela cor dos nossos cabelos, pelas nossas mãos, pelas nossas fraquezas, por tudo. (Lacan 1953-54/2009, p.359)

Lacan (1972-73/2008 p.12), ainda que não criando teoria, faz afirmações contundente, a exemplo de “o amor demanda o amor. Ele não deixa de demandá-lo. Ele o demanda... mais...ainda”. Assim como diz Drummond: “Quero que todos os dias do ano, de meia em meia hora, de cinco em cinco minutos, me digas eu te amo. Ouvindo-te dizer eu te amo, creio, no momento, que sou amado. No momento anterior e no seguinte, como sabê-lo?” Mais ainda é o nome próprio dessa falha de onde, no Outro, parte a demanda de amor. Lacan (1972-73/2008) diz, ainda que ele faz signo, e nele há reciprocidade, porém: “ o amor é impotente, ainda que seja reciproco, porque ele ignora que é apenas o desejo de ser Um , o que nos conduz ao impossível de estabelecer a relação dos [...] dois sexos. No máximo o que ocorrem são encontros de corpos, sintomas, de afetos, de significantes, já que o gozo é sempre solitário, cada um consigo mesmo - em outras palavras, o real do gozo não se inscreve simbolicamente. Reiterando a não existência da relação sexual, ou a não complementariedade entre os sexos. (Ferrari, Mendes, 2018).

 

 

Até aqui o leitor teve elucidados alguns pontos sobre o que está em jogo na eleição do objeto (nem tão objeto assim) amoroso, os infortúnios e contingências provenientes do ato de relacionar-se. E quando, no entanto, o desencantamento fica mais evidente e o real se apresenta sob a forma de quebra da ilusão? Em tempos líquidos pode-se pensar que separação é um dos caminhos, afinal “a fila anda”, lógica do consumo, de tempos de aplicativos de relacionamentos, de encontros e desencontros simultâneos, de correr para a substituição do objeto. Bukowisck, poeta americano/alemão, certa vez disse que: “o amor é como quando você vê a névoa de manhã ao acordar antes do sol nascer. É como um breve instante que depois desaparece. O amor é uma névoa que queima com a primeira luz de realidade.”

 

Ora, se é legitimo que o amor está relacionado à um papel ativo da nossa subjetividade que é mutante, que se trata também de um pacto entre essas duas subjetividades distintas, pode acontecer de que em um dado momento não haja mais consonância entre os desejos, que os parceiros antes comungavam. Uma vez que deslocamos de posições no interior de uma mesma relação pode ser que o discurso que se enlaçou com sua fantasia caia, e ambos revelem seus lados não tão interessantes. Para Homem (2021), é interessante se considerar um intervalo para elaboração e ressignificação dos lutos (tanto do que se construiu sobre algo ou alguém quanto da própria separação), para que se opere uma separação da ilusão e se (re)constitua como sujeito.
 

Em outras palavras, fazer um movimento de conhecer sobre o seu desejo, saber o que é isso de tão especial que foi projetado no outro, para que se aliene menos em uma próxima parceria. Nesse sentido pode-se pensar sobre um amor mais aDVERTIDO, que considere a alteridade, descrita acima, a leveza, o espaço para o equívoco, para o rir de si mesmo, um amor que faça minimamente suplência a não existência da relação sexual. Em que se sai do circuito de gozo – aquele sem espaço para saber o que te faz vibrar, brilhar os olhos. “Só o amor permite ao gozo condescender ao desejo”( Lacan, 2005/1962-63 p.197)
 

Vale questionar: É possível consertar? Essa ruptura é pra valer ou pode-se inventar outro combinado? Caso não seja possível, se após reflexões os parceiros percebam que colocaram o que se podia de libido, exercitaram o melhor de suas subjetividades e mesmo assim não houve encontro, está tudo bem! Parte-se para novos encontros, outras parcerias. Sair inteiro, do mesmo modo que entrou inteiro, se consideramos que somos subjetividades singulares, faltantes pela própria essência do ser, mas nem por isso incompletas, se está em uma parceria, mas antes, se é sujeito. Pensar o amor como um exercício ou uma construção. (Homem, 2021). A análise convoca o sujeito à esse trabalho que não se constitui em tarefa simples, não acontece do dia para a noite com passos, regras e sim ao caminhar de um processo analítico. Um trabalho subjetivo, a partir de um desejo, de um querer saber sobre o funcionamento de si nos enlaces e desenlaces, que culmina em um saber/fazer adquirido para novas vivencias é que é impagável.

Referências

Ferrari, I. F. (2009). Acerca do amor e algumas de suas particularidades na psicose.
Arquivos Brasileiros de Psicologia, 61(3). Recuperado de
http://pepsic.bvsalud.org/pdf/arbp/v61n3/v61n3a10.pdf


Ferrari, I.F. ; Mendes, A, M. (2018). Pontuações acerca do amor na neurose e na
psicose: Ensinamentos Camille Claudel. Psicologia em Revista 25(3)


Ferreira, N. (2004). A teoria do amor. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

 


Freud, S. (1996). Um tipo especial de escolha de objeto feita pelos homens
(Contribuições à psicologia do amor I.). In Edição Standard Brasileira das Obras
Completas de Sigmund Freud. (Vol. 11, pp. 171-180). Rio de Janeiro: Imago.
(Trabalho original publicado em 1910)

 


Freud, S. (1996). Sobre a tendência universal à depreciação na esfera do amor
(Contribuições à psicologia do amor II). In Edição Standard Brasileira das Obras
Completas de Sigmund Freud. (Vol. 11, pp. 185-195). Rio de Janeiro: Imago.
(Trabalho original publicado 1912)


Freud, S. (1996). Sobre o narcisismo: uma introdução. In Edição Standard Brasileira
das Obras Completas de Sigmund Freud. (Vol. 14, pp. 81-108). Rio de Janeiro:
Imago. (Trabalho original publicado em 1914)

 


Homem, M. L (2021). Curso online: O enigma do Amor. Direitos reservados. Acesso
Restrito. www.mariahomem.com

 


Kuss, A.S.S. (2015) Amor, desejo e psicanálise. Curitiba; Juruá.


Lacan, J. (2009). O Seminário livro 1: Os escritos técnicos de Freud. Rio de Janeiro:
Zahar. (Trabalho original publicado em 1953-54)


Lacan, J. (2010). O Seminário. Livro 8: A transferência. Rio de Janeiro: Zahar.
(Trabalho original publicado em 1960-61)

Lacan, J. (2005). O Seminário. Livro 10: a angustia. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.
(Trabalho original publicado em (1962-63)

 


Lacan, J. (2008). O Seminário. Livro 20: mais, ainda. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.
(Trabalho original publicado em 1972-73)


Mendes, A. M. (2018). Dissertação de mestrado apresentada ao Programa de Pós-
graduação Puc Minas.