Sábado, 26 de Junho 2021

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ENTREVISTA

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NARA VIDAL

Nara nasceu em Guarani, Minas Gerais. Formada em Letras pela UFRJ - literatura e língua inglesas.

Em 2001 mudou-se para a Inglaterra onde viveu até 2004 quando mudou-se para a Itália. Em 2005, de volta a Londres, cursou Mestrado em Artes e Herança Cultural na London Metropolitan University.

Nara publicou livros para crianças e adultos. Escreve crônicas, contos e seu primeiro romance, Sorte, foi um dos vencedores do Prêmio Oceanos 2019, com direitos vendidos para a Holanda e México. 

Seu livro mais recente é uma coleção de contos - Mapas para desaparecer - publicado pela Faria e Silva.

É editora da Capitolina Revista, trabalho que lhe rendeu um prêmio APCA. É tradutora e colunista da Tribuna de Minas e do Jornal Rascunho.


foto: Louis Hallam

Para você, qual o lugar da Palavra? 

Pra mim, a palavra é água. Ela pode estar contida, ela pode fluir, ela pode faltar, ela pode ser excessiva. 

Ela mata, afoga e também nutre. 

 

Como aconteceu sua relação com os Livros e a Leitura? 

A tradição oral, o contar histórias, sou eu. Essa rotina de sentar e ouvir casos sempre fez parte da minha vida.

Os livros chegaram de mansinho. Minha mãe começou a formar uma biblioteca em casa - os meus avós não tinham livros em casa, foram autodidatas. Mas meus pais se formaram professores. Os livros e a leitura nos foram apontados desde cedo como algo que serve para a emancipação, especialmente na minha casa com três irmãs e nenhum irmão. Minha mãe insistia muito em estudos e leituras porque talvez fosse feminista, ainda que não falasse a palavra. Mas eu cresci durante a ditadura e os livros, o acesso a eles, eram muito controlados. Li, escondido, O Amante, da M. Duras, quando tinha uns 12 anos e aquela leitura foi um divisor de águas pra mim. Fiquei muito impressionada e esse é um livro que ainda me acompanha.

 

 

Como a Escrita surgiu na sua vida?

Eu era muito ruim de matemática. Assim, fiquei boa em português. Sempre ouvi uma frase: "você leva jeito pra escrever." Ouvi de professores, ouvi da minha mãe, das minhas amigas, das minhas irmãs. Quando fui escrever meu primeiro livro, em 2012, eu já estava mais velha e a escrita veio de forma tranquila e até ingênua. Sem saber muito bem qual o processo de escrita, publicação, eu comecei. 

 

Agora, a leitura e as histórias estiveram na minha vida desde bem nova, criança ainda. E talvez eu já escrevesse com a cabeça naqueles tempos.

 

 

O que te movimenta a escrever e escrever de novo, e, mais uma vez?

Não tenho muita escolha. Escrever é a minha companhia mais leal. É uma relação de amor e ódio, porém. Mas na maioria das vezes, é a minha forma de estar no mundo, minha identidade preservada porque escrevo numa língua que não é falada no país onde moro. Contar histórias, simplesmente, também me move. Ouvir histórias e recontá-las, reorganizá-las, me emociona.

 

O que a Nara criança respondia para a frase: "o que você quer ser quando crescer?"

 

Eu não pensava muito na questão de ter uma profissão, ser algo. Pensava em ser alguém que sairia do território ao meu entorno. Desde muito pequena, seis, sete anos, quis sair do país e estudei inglês como forma de cumprir esse desejo que continua sendo satisfeito. Acho que queria ser livre, mas isso não foi possível porque nunca é.

 

 

Muitos escritores mantém material guardado/reservado. Como é para você o processo de criar/construir e decidir publicar?

Eu acho curioso quem escreve para guardar. Eu escrevo, às vezes para mim, mas a partir do momento que compartilho com editores, eu quero ser publicada e lida. As anotações e a escrita que acontecem na mente, a pré-escrita, ou as reflexões, essas são íntimas e privadas. Quando, porém, as palavras passam a ocupar a tela do laptop, há da minha parte o cuidado em buscar uma narrativa que apresente tema, forma, personagens que valham o tempo de quem for ler, eventualmente. O processo é, às vezes, penoso, frustrante. Nem sempre a escrita flui. Na maioria das vezes é algo como uma experiência fora do corpo porque quando alguém fala de algo que eu escrevi, eu geralmente não reconheço. Uma vez publicado o livro, eu não volto a ele. A não ser por questões de demanda de trabalho. Mas para eu mesma ler, não. Leio outras coisas de outros autores. O meu, nesse sentido, não me interessa mais. 

 

Qual de seus personagens se tornou mais marcante, por quê?

Não tenho tanta experiência e só publiquei um romance até agora e alguns livros de contos. Mas acho que a Mariava, a mulher que é escravizada no livro Sorte, causou algumas reações. Há leitores que ficaram profundamente tocados por ela. Outros se frustraram com suas poucas palavras, com sua pouca presença na história. Mas essa ausência e esse silêncio foram premeditados. Foi uma proposta que eu ofereci e que eu encontrei para representar a sua anulação na História e na sociedade.

 

Você tem um autor favorito?

Talvez Shakespeare seja o que mais se aproxima de favorito. 

Como sempre busco leituras novas, nomes de favoritos é algo fora de questão. Mas Shakespeare dá conta de me fazer refletir sobre quase todas as questões que eu procuro e não procuro.

 

Talvez a obra dele seja o que eu mais gosto de estudar. 

Como pensa o lugar e o impacto do seu trabalho na sociedade?

Honestamente, não penso no meu trabalho como algo que possa impactar a sociedade. Eu gostaria de continuar tendo a liberdade de criar sem essa ideia ou presunção de impactar. Acho que se um autor de ficção deseja impactar socialmente através seu trabalho, seria o caso de ele cogitar mudar de gênero de escrita. A ficção como forma de arte precisa estar desatada de qualquer responsabilidade assim. Somos irresponsáveis. 

 

Se pudesse costurar a vida com uma palavra só: 

Gambiarra. Literal e metaforicamente.

Entrevista realizada Por ISIS CARINA NUNES.

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