Sábado, 29 de Maio 2021

lacanlitoral

ENTREVISTA

WhatsApp Image 2021-05-29 at 11.04.29.jp

LUCIANO SALLES

Luciano Salles é quadrinista e ilustrador da Folha de S.Paulo.


Desde 2019 ilustrava as colunas do psicanalista, Contardo Calligaris.

 

Publicou seis títulos em quadrinhos, deixando sua marca no cenário nacional.

Instagram e Twitter: @lucianosalles


Blog: https://www.dimensaolimbo.com

De onde você partiu (em termos de área de interesse e formação) e de que lugar atua hoje?

Parti de certa confusão em relação à arte. Me formei em engenharia civil, pós-graduei em engenharia de segurança do trabalho. Trabalhei pouco na área e quando percebi, estava trabalhando em uma instituição bancária. Fiquei quase 13 anos no banco passando por todas as etapas dentro de uma agência. Novamente, quando me dei conta, era gestor.


Me entendi com a arte e hoje sou quadrinista e ilustrador do jornal Folha de S.Paulo. Também me ocupo de outras áreas artísticas, mas me defino com um desenhista, um ilustrador.

 

Por onde bordejar-dizer o acontecimento que te levou ao que faz hoje? 

Bordejar é o verbo ideal para apresentar meu itinerário. Na pergunta anterior, o primeiro parágrafo da resposta engloba da infância, de minhas primeiras lembranças, até meus 37 anos.

Enfatizei sobre o verbo bordejar pois creio que em 2012, aos 37 anos, o vento simplesmente parou de soprar. Ali meu barco estancou e de supetão me liquefiz. Não me entendia, não tinha mais controle, não conseguia trabalhar e, por mais que tentasse (e olhe que tentei), algo em mim havia desencaixado. Em uma madrugada de muito medo – terror seria o adequado –, muito angustiado, chorando, minha esposa disse para eu pedir demissão pois eu só iria trabalhar com minha arte.

Pedi demissão uma vez, duas vezes e depois de minha insistência, fui desligado da empresa. Havia desenvolvido e fui diagnosticado com síndrome do pânico.

 

Como pensa a relação entre arte & escrita?

São duas formas de expressão tão distintas que trabalham muito bem juntas. É como uma grande estrutura de concreto armado. Pense no vão livre do MASP.


Na Folha de S.Paulo, onde ilustrava as colunas do Contardo Calligaris, não havia motivos para simplesmente desenhar o que ele já havia escrito. Lia, relia o texto em busca do que estava ali, implícito, não estava em palavras. Penso que o poder da ilustração, arte e escrita, se encontra nessas peculiaridades.

 

Você recorda o que costumava pensar sobre a vida adulta, quando criança? 

Sinceramente, não. Essa pergunta me surpreendeu, pois não tenho recordação de pensar algo assim. Se fosse a clássica, o que você queria ser quando crescer?, poderia ter uma resposta "não sincera", mas teria uma resposta.

 

Como pensa o impacto do seu trabalho no mundo contemporâneo?

Como uma célula para um organismo, quem sabe como um componente de uma célula de um organismo. Não consigo mensurar isso, mas sei que meu trabalho em quadrinhos afeta as pessoas de modos diferentes. Uma mesma história pode ser lida e entendida tanto como hermética como algo que traga alento.

Alguns meses depois de publiquei Grand Prix Metanoia, minha última HQ, recebi uma mensagem de um leitor que tatuou o termo "metanoia" por cima de cicatrizes de cortes que fazia em seu punho. Ele enviou uma foto da tatuagem e junto um texto que me agradecia pela história que havia publicado.

Neste ponto acredito que o meu trabalho impacta. O mesmo vale para minhas ilustrações. As reações são sempre afetivas, pontuais e diversas.

 

Por onde passa sua relação com Psicanálise? Como se deu seu encontro com ela?

De alguma maneira, depois que me liquefiz e que estava estabilizado por medicação e acompanhamento psiquiátrico (algo por volta do final de 2014), comecei a questionar sobre o que havia acontecido comigo. O que tinha acontecido? O que foi aquilo que me desencaixou? Aqui não posso deixar de agradecer ao Dr. Marcelo, meu médico psiquiatra (hoje um amigo), que de certa forma estimulou, inconscientemente ou não, muito dessa minha busca.

Para tentar responder essas e incontáveis outras perguntas, defini que tinha que começar minha pesquisa pela filosofia. Era o que me ocorria. Enquanto ia produzindo meus trabalhos, escutava palestras sobre assuntos filosóficos, até que tomei contato com as aulas gravadas do primeiro semestre de filosofia da ECA-USP. O professor era o Clóvis de Barros Filhos. Eram as aulas, em ordem, de todo o primeiro semestre. Estavam ali, disponibilizadas, e esse foi meu norte.

Passei os anos de 2015 e 2016 estudando por conta. Achei outros cursos filmados, aulas gravadas e assim segui. Sei que em 2017, enquanto escrevia o roteiro de EUDAIMONIA (meu quinto quadrinho), uma das referência de leitura foi um trecho de um texto do Freud. Ali, naquelas poucas linhas, parecia que havia uma possível trilha. Comecei a procurar por palestras, aulas, alguém que falasse algo sobre o assunto, não necessariamente sobre Freud, mas algo naquela direção.

Nessa época eu já estava na Folha de S.Paulo, mas como ilustrador freelancer. Meu trabalho era desenhar as páginas das minhas revistas, fazer as ilustrações para o jornal e sempre escutando algo sobre aquele caminho que já sabia se tratar de psicanálise. Descobri Lacan e me frustei na tentativa de ler. Comprei um livro para tentar entender como ler Lacan e nem esse livro, que pretendia orientar para a leitura de Lacan, eu conseguia ler. Me identificava com aquele caminho mas não conseguiria seguir sozinho.

Minha esposa – por quem tenho tamanho amor e admiração –, disse para eu perguntar para uma amiga psicanalista, que praticava yoga conosco, sobre o assunto. Foi ela que indicou a escola onde havia se orientado.

Em 2019, inventei a condição de que só faria análise se fosse aceito por essa escola. Passei por uma entrevista e desde então, me oriento no Centro Lacaniano de investigação da ansiedade – Clin-a – de Ribeirão Preto.

 

Como pensa a dimensão do traço nas suas composições? 

Enfrentar um folha de papel em branco é algo difícil. Antes de qualquer ilustração eu penso sobre o que farei, como farei, qual será o enquadramento da peça, resumindo, eu tenho o desenho pronto na cabeça antes de ir para o papel.


De acordo com esse processo, em todo desenho que faço há muito de mim. Não tem como ser de outra maneira.

 

O que faz limite entre consciente e inconsciente para você?

O ato de observar. Digo, do ato de observar coisas banais como quando lavamos a louça, por exemplo.

 

Se pudesse indicar apenas um livro, qual seria? Por quais questões?

Tenho uma relação forte com 1984, de George Orwell. Distopias sempre me atraíram, em especial onde pessoas não tem opção, onde o sujeito é subjugado.

 

Se pudesse costurar a vida com uma palavra só: 

Observe.

Luciano Salles
@lucianosalles
http://dimensaolimbo.com

Entrevista realizada Por ISIS CARINA NUNES.

TODOS OS DIREITOS RESERVADOS AO LACAN LITORAL.

Caso se interesse em utilizar os materiais do site,  organize-se quanto aos créditos.