Sábado, 03 de Julho 2021

lacanlitoral

ENTREVISTA

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LILIAN PENTEADO

É arquiteta e urbanista, se aventura na fotografia e é apaixonada por performance e artes do corpo.

Mora em Araraquara, interior de São Paulo e faz parte do grupo Memento 832 ao lado dos artistas Luciano Salles e Leila Penteado.

Dançou na cia. Ditirambo de Dança Contemporânea, entre outras. É professora de yoga e filosofias afins, embora esteja se questionando mais uma vez sobre o que está fazendo. Só sabe que da arte e da poesia não consegue fugir.

acompanhe ao final da entrevista o vídeo

We Need To Talk/ PRECISAMOS FALAR

 

 

Nos conte um pouco de seu trabalho e sua formação:

 

sou/fui professora/arquiteta e vice-versa

me aventuro amadolorosamente pela fotografia 

a poesia me provoca

habito araraquara e o interior me habita

arte-corpo me acende

danço entremeio 

 

 

O que é Corpo para você?

 

Corpo é mergulho e voo

& a trama que dança entre

 

é

ser onde explode 

imanência e transcendência 

 

“tem sangue eterno a asa ritmada”

Cecília me disse e eu respirei  c o r p o

 

um fazedor de verbos

 

o que briga 

resiste e cega

o insistente dizer sobre si mesmo 

de que a alma não lhe cabe 

onde dói 

sou

 

um desdobrador de nomes 

ou dois

 

Corpo corpo 

corpo Corpo 

 

que régua te mede?

 

 

Como começou sua relação com a leitura?

 

vai uma noite e um quarteirão 

do portão de casa até a escola

 

as casas tinham grades

a escola não tinha 

 

dava pra ver a biblioteca já da calçada 

os alunos atrás das persianas

dava pra ver a cantina e as mesas 

 

eu comia na escola

comia tudo da escola

o prédio 

a aula

a sala

os armário de correr

o jardim

a merenda

 

a biblioteca 

 

A Mão e a Luva

A Cartomante

O Alienista

 

nossa

tinha até Romeu e Julieta na aula de teatro

 

a gente ia lendo junto

sentados em círculo

 

a coisa ia e eu encuquei

“que atrapalhados, isso chega a ser engraçado” 

pensei, pensei mas não falei, claro

 

mas teve uma primeira vez

bem antes do Amado, do Édipo, 

e das encenações de fim de ano

 

Senhora era o livro do mês

 

quem pede isso pra uma criança?

 

“brilha no ceu fluminense uma estrela”

 

e voilà 

li devagar 

começava assim

li umas boas vezes

foi uma sensação de abertura

 

desvirei a frase, desvendei o fluminense

uau

 

foi ali

a primeira de muitas vezes

aquele estrondo que só quem sente sabe

mas você sabe se eu falo 

 

 

(acima narro primeiros encontros formais com as letras pomposas mas definitivamente não foi só ali que o amor se deu)

 

 

Como acontece sua relação com a Escrita? 

 

se fosse escrita com ezinho

responderia gato & rato 

 

não me habituo a escrever

 

se me provocam, escrevo

 

se não

deixo passar

preguiça parece

 

bom, mas não era essa a pergunta

Ou era?

 

 

a Escrita acontece

não tem jeito

é insistente 

e como não ser?

 

e como não ser

 

tem um infinito que não é só seu mas é também 

em movimento em tensão em risco em alento em grito em silêncio em esbarrar em corroer em escorrer em transpassar em afundar em calar em deixar em soltar em desistir em furado em comido em doído em sonhado em voado em avoado em sentado em encarnado  

 

a gente se inscreve e trama aqui e trama ali e fabula e confabula

tá aqui ó 

corpo 

 

 

água viva, Clarice me disse

 

 

Você tem um livro, autor e/ou personagem preferido?

 

são tantos uns

três que são um

que religioso isso, não?

 

 

Lavoura Arcaica

 

Virginia Woolf

 

G.H.

 

 

O peso do pássaro morto

 

Fernando Pessoa

 

Orlando

 

 

Qual sua relação com a psicanálise, hoje?

 

CRIANÇA BIRRENTA

 

Que experiência marcante poderia narrar sobre sua relação com a arte?

 

De quando dilatei na frente de um pollock 

 

O que mudou para você sobre como lia o mundo, quando menina, e como lê hoje?

hoje hoje hoje

voltaria na pergunta sobre psicanálise

 

a menina está bagunçando aqui

 

talvez 

eu esteja permitindo que aquela menina leia o hoje do mundo

talvez

eu esteja do hoje permitindo que aquela menina leia o mundo

talvez 

eu esteja aquela menina permitindo o leia hoje do mundo

 

 

posso contar, será?

um dia na análise eu assustei

 

(sempre não sei falar nas sessões, enrolo, escondo, faço rodeios, acho que não serve pra nada; mas servir pra quê? "sempre" eu quis dizer só há um ano e meio)

(rio do meu drama) (aquele romeu e julieta devem me servir pra alguma coisa)

 

um dia na análise eu assustei

foi fantasmagórico

eu nadava

Qual sua concepção do que é Imagem?

 

Imagem Maiúscula?

 

ela me vem matemática 

1:1

escala

espelho 

 

uma mãe de mil imagenzinhas

 

quando você me pergunta o que é o corpo pra mim, eu digo UM desdobrador de nomes, talvez a imagem, a minúscula ou a maiúscula, sejam onde adjetivo e verbo se sujeitam

Se pudesse costurar a vida com uma palavra só: 

 

entremeio 

assista agora

We Need To Talk/ PRECISAMOS FALAR

Ainda que seja considerado um solo, PRECISAMOS FALAR é um duo, uma conversa entre um corpo e um objeto, no caso, uma mulher e uma cadeira. Este diálogo, trazido para a cena, é capaz de evocar diversos significados, criar tensões que remetem a hipóteses cotidianas, tradições familiares, poder e submissão, assim como uma questão “simples” do que é a representação na arte.

 

Concepção e performer / Lilian Penteado

Composição musical / Luciano Salles

Fotos e vídeo / Leila Penteado

Produção / Memento 832

 

 

 

 

 

Entrevista realizada Por ISIS CARINA NUNES.

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